2.3.2.2 Rádios de «play list»
Se o casamento é perfeito, a «play list» é o resultado mais visível dessa união. Quase todas as rádios musicais têm uma «play list», de actualização regular, mas de características fechadas e, na maior parte dos casos, de dimensões reduzidas. É a «play list» que fornece identidade ao formato musical, a ponto de se poder confundir a «play list» com a própria rádio. Da mesma forma, o cuidado posto na sua elaboração pode justificar a aquisição de «software» especializado na gestão musical (por exemplo, os polémicos “Selector”[1] ou o “Musiclock”, acusados de contribuírem para uniformizarem a oferta radiofónica), a realização de estudos de opinião, a contratação de consultores externos ou, até, o franchising de um formato registado, que pode trazer todo esse trabalho de preparação já pronto e testado – ou seja, “a ‘play list’ determina o que vai ser tocado e quantas vezes vai ser tocado” (Fleming, 2002, 54).
Mas não há «play list» sem o seu programador – aquele ou aqueles a quem a rádio confia a missão de escolherem as músicas – a função de «gatekeeper». “Os responsáveis pela «play list» [Radio gatekeepers] têm responsabilidades perante o público apenas em sentido vago: a sua principal preocupação é servir os públicos específicos que a direcção ou os proprietários da rádio delinearam”, defende S. Barnard (Hendy, 2004: 99).
“Todas as semanas, o GWR [em Maio de 2005 este grupo de rádios fundiu-se com o Capital Rádio e os dois deram origem ao grupo GCap Media, o maior da GB] fala pelo telephone com centenas de pessoas, entre os 20 e os 34 anos, sobre os seus gostos musicais. A quem responde é pedido que diga qual é a sua preferência musical de uma pequena lista de nichos musicais e depois perguntam-se as suas opiniões sobre uma lista de canções actuais. Os ensinamentos sobre esta pesquisa permanente ajudam a construir as «playlists do grupo” (Fleming, 2002: 16/17).
A presença das «playlists» como
instrumentos de programação tem suscitado muita polémica. Norberg resume bem o dilema:
“Los oyentes quieren escuchar con frecuencia las canciones que les
gustan. Si ponemos las preferidas demasiado poco los oyentes no las oirán con
tanta frecuencia como para suponer que las vamos a emitir de nuevo. Esto no
anima a una escucha prolongada y frecuente. Por otro lado, si se ponen las
canciones con excesiva frecuencia, quizá les parezcan repetitivas y les haga desconectar
muy rápidamente, acortándose así los espacios de escucha” (Norberg, 1998:
82).
A indústria radiofónica norte-americana segue, por vezes, uma determinada terminologia quanto à idade da música, que convém, neste contexto, ter presente, porque ela vai influenciar as denominações seguintes dos formatos: “hits” são os sucessos do momento (que, em certos casos, podem prolongar-se no tempo); “current” refere-se a música lançada no último ano; “contemporary” é a música lançada nos últimos 15/20 anos; “oldies” enquadra a música dos anos 50/70; e “nostalgia” é música anterior à década de 50[2].
Os principais formatos de «play list» são:
- “Contemporary Hit Radio” (“CHR”):
segundo alguns teóricos, deveria chamar-se, antes, “Current Hit Radio”, pois
refere-se à rádio que passa a música mais recente (do último ano), ou “Top
- “Adult Contemporary” (A/C): passa música pop e, menos, rock (desde que são seja “pesado”), surgida nos últimos 15/20 anos. Destina-se a ouvintes generalistas (que não procurem determinado tipo de música ou especificamente os sucessos), acima dos 30 anos. Podem misturar, em percentagens mais ou menos equilibradas, sucessos da música actual e temas mais antigos. Sendo o formato musical de maior sucesso nos Estados Unidos, existem algumas variações, sendo a “Lite A/C” ou “Soft A/C” caracterizada por uma música mais suave (próxima da “beautiful music”)[4] e a “Modern A/C” por música um pouco mais recente; a revista Billboard tem um top com temas “Adult Contemporary”, considerada a música “mainstream” dos EUA (genericamente: jovem adulto e adulto 18/25-34/40);
- “Hot Adult Contemporary” (“HA/C”) ou “Adult Top 40”: é uma derivação importante do “AC”, caracterizada por incluir temas recentes da música pop (Madonna, Sheryl Crow ou Coldplay são alguns exemplos); destina-se a um público mais jovem do que o “A/C”; Se avaliarmos a agressividade da música que passa, dir-se-á que o “HA/C” está a meio caminho entre o “A/C”, mais suave, e o “CHR”, mais enérgico;
- “Adult Album Alternative” (“Triple A”) – é ainda uma derivação do género “Adult Contemporary”, mas merece uma distinção das restantes variações por apresentar uma play list mais alargada, em estilos e gerações, em que se incluem temas menos conhecidos dos discos (não apenas os singles), de diversos géneros musicais, excepto a música mais pesada ou o “rap”; muitas estações “Triple A” identificam-se como “World Class Rock”, com música das duas últimas décadas;
- “Gold”: esta designação muito genérica, e que pode mesmo ser considerada uma espécie de “família” ideológica, abrange as rádios que passam música mais antiga, seja no formato “Classic Rock”/“Classic Hits” (sucessos da música rock dos anos 70 e 80 dirigidos principalmente a jovens mais adultos ou mesmo a adultos, 25-40, misturando raros sucessos da actualidade), seja no formato “Oldies” (músicas/sucessos dos anos 50 e 60); há ainda formatos com música mais antiga, como o “Nostalgia” (a partir dos anos 40, aqui incluindo as “Big Bands”, dirigido a um público acima dos 50 anos)[5];
- “Album Oriented Rock” (“AOR”): por vezes é confundido com o “Classic Rock”, uma vez que ambos se dedicam ao rock mais antigo. Mas o “AOR” não está dependente das tabelas de vendas e dos singles que fizeram sucesso. Por isso, tem uma play list muito mais variada, com temas menos conhecidos dos músicos, dirigida aos ouvintes masculinos, entre os 18 e os 34 anos (é uma das mais históricas e resistentes; foi das primeiras a passar blocos de música sem interrupção do animador ou publicitária);
- “Country”: música “country”, seja na versão moderna (“hit”) seja na de “oldies”; é o formato, actualmente com mais estações registadas (jovens adultos e adultos, 24-54);
- “Urban”: caracteriza-se por passar música nova, de origem ou inspiração negra (rap, hip-hop, r&b ou soul), dirigida a um público jovem (18-34). Também aqui existem algumas variações: “Urban Contemporary” ou “Urban AC” remete mais para a música rythm and blues ou soul, misturando alguns sucessos com música mais antiga e menos rap; outra variação: o “Urban” dedicado à música de dança;
- “Ethnic”: são rádios especializadas em música de um determinado país ou região dirigidas a ouvintes dessas origens e faladas nessa língua; existem nos EUA muitas rádios hispânicas, que podem não ser apenas de música (“Latin Urban” ou “Spanish”, com diversas variantes), mas também de conversa e que replicam os principais formatos; “Hurban” é o formato “Urban” hispânico, misturando Hip-Hop com o estilo “reggaeton”; já na Grã-Bretanha as rádios asiáticas são mais frequentes;
(ficam de fora, por falta de espaço, dificuldades na sua completa percepção ou menor representatividade, designações como “Active Rock”, “Modern Rock”, ou “Classic”. Mas basta, por exemplo, consultar a lista de formatos de música da Wikipedia[6] para perceber que a lista é muito mais vasta).
[1] Há quem não veja efeitos negativos na utilização massificada destes sistemas informáticos: «Nós contratamos pessoas para elas valorizarem o formato (…) Nós não as contratamos [aos animadores] para escolherem a música na medida em que eles não foram escolhidos pelos seus grandes conhecimentos musicais – eles foram contratados para entreter e para encontrar alguma coisa interessante para dizer», (Fleming, 2002: 56)
[2] A sofisticação pode chegar ao ponto de distinguir, além do estilo de música e do período em que foi editada, critérios como «music activity level» e «music sophistication», in http://www.nyradioguide.com/formats.htm#music (consultado a 8/4/06).
[3] Cfr Pedrero Esteban, 2000: 172.
[4] “O programador de uma estação formatada para ‘Soft Adult Contemporary’, por exemplo, excluírão automaticamente da sua ‘playlist’ qualquer disco com um som de guitarra mais ‘ruídoso’ e procurará faixas com uma produção mais suave, harmoniosa e melódica” (Hendy, 2000: 99)
[5] Esta é uma arrumação mais polémica, se comparada com a já citada lista da Arbitron. Aí, há um grande formato designado por “Oldies”, que agrupa “70 Hits”, “80 Hits”, “Classic Hits” ou “Oldies”. Já o formato “Nostalgia” é colocado num grupo designado “Adult Standards”
[6] http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_music_radio_formats (consultada a 29/4/06)